O milho é a segunda maior cultura de importância na produção agrícola no Brasil, sendo superado apenas pela soja que lidera a produção de grãos no país. Para a safra 2015/2016, a produção esperada é de 80 milhões de toneladas. O milho está na história do Brasil desde os primórdios do descobrimento, sendo cultivado por tribos indígenas das regiões Centro-Oeste, e possui tradição na culinária brasileira com pratos como a pamonha, o curau, o mingau e a pipoca, dentre outros. Nesta terça-feira (24) é comemorado o Dia Nacional do Milho, criado pela Lei n° 13.101/2015, com o objetivo de estimular sua cultura no país. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) parabeniza os agricultores que produzem e contribuem com o aumento e a promoção do cereal.

No início de seu cultivo, o milho era utilizado basicamente para a subsistência humana. Com o decorrer do tempo foi ganhando importância e transformou-se no principal insumo para a produção de aves e suínos, além de sua importância estratégica para a segurança alimentar do brasileiro ao longo das últimas décadas. O Brasil já é o segundo maior exportador mundial de milho, superado apenas pelos Estados Unidos. O produto é reconhecido por sua boa qualidade e por garantir o abastecimento em vários países exatamente no período da entressafra dos EUA. Os principais países importadores do milho aqui produzido são o Vietnã, Irá, Coréia do Sul, Japão, Taiwan, Egito e Malásia.

Produção diversificada – Com o crescimento da produção agrícola brasileira, a partir de 1960 até o ano 2000, as regiões Sul, Sudeste e o estado de Goiás respondiam por aproximadamente 70% da oferta nacional do grão. Entretanto, a partir de 2001, a dinâmica da produção do cereal começou a tomar novos rumos, sendo que, na safra atual (2015/2016) o total da produção destes estados deve representar menos de 45% da colheita no país.

Os fatores responsáveis por esta mudança na cadeia produtiva do milho são diversos: expansão da agricultura para o cerrado; busca por novas tecnologias pelos produtores; desenvolvimento de sementes mais adaptadas às condições climáticas de cada região; aquisição de equipamentos de melhor rendimento e desempenho; e criação de técnicas redutoras de perdas físicas e de qualidade.

A expansão da soja para o Cerrado levou junto a cultura do milho, que, inicialmente, era utilizado somente como prática de rotação de cultura para incrementar a palha ao solo fraco do bioma e também para quebrar o ciclo de pragas e doenças. De acordo com relato de diversos produtores, as áreas que passavam pelo cultivo de milho nos três anos seguintes apresentavam ganho de produtividade de três a cinco sacas de soja, comparativamente às áreas que não realizavam esta prática.

Os produtores adotavam o plantio de milho em aproximadamente 20% das áreas, em cada ano, com o objetivo de melhorar a estruturação do solo e aumentar o rendimento das lavouras de soja. Esta técnica começou a ganhar importância em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. Entretanto, a partir de 2001, o plantio do milho segunda safra passou a ganhar destaque nas regiões produtoras de grãos do cerrado,  assim como no Paraná e em São Paulo.

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De acordo com os números da Conab, principais estados produtores de milho são Mato Grosso, com previsão de 20 milhões de toneladas para a colheita 2015/2016, seguido do Paraná com 16,2 milhões de toneladas, Mato Grosso do Sul com 8,3 milhões de toneladas, Goiás com 7,7 milhões de toneladas, Minas Gerais com 7 milhões de toneladas e Rio Grande do Sul com 6 milhões de toneladas.

Políticas públicas e propostas voltadas para a cultura do milho são discutidas, mensalmente, pela Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas, da CNA. Segundo o presidente da Comissão, Almir Dalpasquale, o milho no Brasil se destaca pela qualidade e pelo equilíbrio voltado para o consumo interno e as exportações.

No seu entender, o país não pode se preocupar apenas com as vendas externas. É preciso incentivar também o consumo interno. O produtor deve olhar não só para o preço, mas também para as agroindústrias que mantêm o mercado interno e promovem o equilíbrio entre a produção e o consumo do produto. Temos uma demanda forte dentro e fora do país”, destacou.

Veja abaixo entrevistas com produtores de milho

MATO GROSSO

Produtor de Mato Grosso, Arlindo Cancian

O Estado do Mato Grosso é o maior produtor de milho do Brasil, produzindo um total de 19,09 milhões de toneladas e representando 37% da produção nacional na safra 2015/2016, segundo a Conab. Uma das particularidades mais interessantes do milho produzido em Mato Grosso é que grande parte dele é caracterizada como milho de segunda safra, também conhecido como milho “safrinha”. Segundo dados da Conab, 98% do cereal do Estado é de segunda safra.

O produtor de grãos e presidente do Sindicato Rural de Canarana, em Mato Grosso, Arlindo Cancian, é natural de Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, mas está em Mato Grosso há 38 anos. “Naquele tempo o objetivo principal da maioria dos agricultores era cultivar soja, porém, devido às necessidades e a busca de novas alternativas de produção, surgiu a possibilidade de cultivar milho”, contou.

Cancian começou o plantio de milho em sua propriedade há aproximadamente 10 anos, sendo sua principal atividade o milho de segunda safra. “A maior dificuldade para manter a produtividade do milho na região é a disponibilidade hídrica, pois ambientes favoráveis possibilitam o crescimento de área cultivada”. Segundo o produtor, o desenvolvimento de novas tecnologias favoreceu muito a produção agrícola, especialmente do milho em Canarana e no estado.

 

SANTA CATARINA

Lavoura de milho em Santa Catarina

Há 30 anos Enori Barbieri trabalha com a produção de grãos em Xanxerê, oeste de Santa Catarina, município conhecido como a capital do milho no Estado. Com uma área de 180 hectares e dois trabalhadores, Barbieri produziu em 2015 de 9 mil sacas de 60 kg do grão. Em 2016 a colheita contabilizou 4 mil sacas de 60kg ou 240 toneladas.

“O milho é um insumo básico para o agronegócio catarinense, influencia diretamente na produção de aves, suínos e leite. Mas, infelizmente, esses setores não reconhecem essa importância”, destaca o produtor. Barbieri considera que a falta de milho no Estado é fruto de uma política equivocada de comercialização do produto. Para ele é preciso que os consumidores de milho valorizem as estratégias para a produção. “Os produtores rurais não têm a segurança de comercialização do mesmo modo que a soja oferece, pois, na soja, há oportunidade de vendas de contratos futuros o que garante uma segurança de comercialização ao produtor”, pontua.

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CENÁRIO CATARINENSE – O Estado é considerado o maior consumidor de milho no Brasil, principalmente em decorrência das agroindústrias. “Somos o Estado que mais depende da produção”, ressalta Barbieri. A região do meio Oeste, onde estão concentradas as lavouras comerciais, é a que mais produz.

Santa Catarina possui o mais avançado parque agroindustrial do Brasil, representado pelas avançadas cadeias produtivas da avicultura e da suinocultura. Essa fabulosa estrutura gera uma riqueza econômica de mais de 1 bilhão de aves e 12 milhões de suínos por ano, sustenta mais de 150 mil empregos diretos e indiretos e gera bilhões de reais em movimento econômico.

Um dos principais insumos para o funcionamento dessas gigantescas cadeias produtivas é o milho. Por isso, o sucesso ou o fracasso da cultura do milho reflete diretamente na economia catarinense. Em 2005, 106 mil produtores rurais catarinenses cultivavam 800 mil hectares com milho e colhiam entre 3,8 e 4 milhões de toneladas. Nesses dez anos, a área plantada foi se reduzindo paulatinamente e, em 2015, foram cultivados entre 250 mil e 300 mil hectares de lavouras para uma produção estimada em 2,5 milhões de toneladas.

Esse quadro representa uma equação perigosa: para um consumo de 6 milhões de toneladas haverá uma produção interna de 2,5 milhões e, portanto, uma necessidade de importação de 3,5 milhões de toneladas de milho. Insumo escasso representa encarecimento para os produtores rurais e para as agroindústrias. Em razão desse fator. A alimentação de carne – bovina ou suína – acabando sendo mais caro para o consumidor.

SÃO PAULO

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção estadual de milho tem variado ao longo dos últimos anos entre 4 e 5 milhões de toneladas. Na safra 2014, a safra foi de 3,9 milhões de toneladas, equivalentes a 5% da produção nacional. Em média, a cultura ocupa perto de 805 mil hectares. A produção de milho concentra-se na região Sudoeste do Estado de São Paulo. Destacam-se na produção os municípios de Capão Bonito, Casa Branca, Itapetininga, Itaberá e Itapeva.

O histórico de produção do milho, de domesticação da cultura, começou nas Américas com os índios, que o utilizam na alimentação. No Brasil, tribos do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, como os Caiabi, Kaingangs e Guaranis utilizavam a espécie. Pratos importantes da culinária brasileira atual, como pamonha, curau, mingau, pipoca, cuscuz, dentre outros, tem origem em costumes indígenas e contribuíram para difusão do cultivo por todo o território nacional. Em São Paulo, não foi diferente, a cultura evoluiu a partir do crescimento da população e da agricultura brasileira.

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O produtor, Luiz Yoneto Yoshida, de tradicional família de agricultores do interior paulista, município de Itaí, onde há mais de 40 anos exerce a atividade, produz milho, soja, feijão e outras culturas, sendo que para a lavoura de milho destina aproximadamente 200 hectares das terras cultivadas. Segundo ele, grande parte da produção de milho do município de Itaí é destinada às granjas de aves e suínos. Quando questionado sobre sua produção de milho ele diz: “Acho que esse ano a produtividade vai cair por causa da estiagem, mas como o preço está melhor, se não gear, deve compensar as perdas”.

 

RIO GRANDE DO SUL

Produtor do Rio Grande do Sul, Danilo Benedetti

No Rio Grande do Sul, a cultura do milho está fortemente arraigada e ligada à história do Estado, tendo sido sempre uma importante fonte de renda e desenvolvimento de inúmeros produtores gaúchos. A história de vida de Danilo Benedetti, presidente da Comissão de Milho da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL), também se mistura com a da produção do cereal.

Há 36 anos trabalhando à frente da sua empresa de planejamento agrícola, Benedetti pode ser considerado um especialista na produção de cereais, principalmente com base na cultura de irrigação. Além da empresa pessoal, Danilo também é um dos instrutores mais antigos do SENAR/RS. Se somados toda a área por ele atendida, entre os municípios de Espumoso, Cruz Alta e Caxias do Sul, são mais de 12 mil quilômetros de área com cultivo de milho, feijão e soja. “Procuramos dar assistência a produtores de toda região, com foco principal em plantio direto”, afirma Benedetti.

Sua história com a produção de milho começou ainda na juventude, quando se tornou técnico e, posteriormente, engenheiro agrícola. O trabalho de assistência técnica junto a cooperativas agrícolas começou desde muito cedo. Segundo Danilo, a produção do milho já teve muitos altos e baixos no Estado, mas neste ano voltou a crescer. “Nos anos 1990, o milho perdeu espaço no Rio Grande do Sul. Para continuarmos com a produção, passamos a incentivar os produtores locais a utilizarem o sistema de irrigação. A partir deste momento, passou-se a produzir um milho de melhor qualidade e com mais produtividade”, revela.

Ainda assim, o presidente da Comissão de Milho da FARSUL enxerga que ainda existe potencial para crescimento do milho nas lavouras gaúchas. “O milho é um cereal significativo para a cultura de rotatividade, mas é preciso haver maior incentivo e menos burocratização – como liberação de projetos, outorga de águas –, para facilitarmos a vida dos produtores. Temos batalhado junto aos governos para isso”, destaca Benedetti.

Fonte: Federações da Agricultura

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