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Alerta no agro: 75% dos drones agrícolas estão irregulares e contratação é crime ambiental

Vicente Delgado
15/03/2026 às 10:54
Alerta no agro: 75% dos drones agrícolas estão irregulares e contratação é crime ambiental

Não estamos falando apenas de uma multinha da ANAC. Estamos falando de processo criminal. O perigo invisível que sobrevoa a sua lavoura e pode custar a sua fazenda. É o famoso “barato que sai caro

O ronco dos motores de um trator ou o barulho característico de um avião agrícola cruzando o talhão são sons familiares para quem vive o dia a dia da porteira para dentro. Mas, nos últimos dois anos, um zumbido novo passou a dominar o céu do Brasil: o dos drones agrícolas de pulverização. O que parecia ser a solução mágica para as “beiradas” de talhão e áreas de difícil acesso virou um gargalo jurídico e de segurança que está tirando o sono de muita gente grande.

A verdade é que a tecnologia correu muito mais rápido do que a consciência de quem está operando. No pátio das revendas e nas conversas de sindicato, o assunto é um só: a facilidade de comprar uma máquina chinesa de última geração. O problema é que, entre apertar o botão do controle remoto e estar dentro da lei, existe um abismo que pode levar o produtor direto para o banco dos réus.

A explosão de drones irregulares no Brasil acende o alerta para crimes ambientais e riscos de queda que o produtor não pode ignorar. Entanda os detalhes dessa situação preocupante.

O salto de 40 mil máquinas e o “cemitério” de eletrônicos

Para entender o tamanho desse nó, a gente precisa olhar para os números que o Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) trouxe agora em 2026. Em 2021, o Brasil tinha pouco mais de 350 drones registrados. Hoje, já passamos da marca de 40 mil equipamentos. É um crescimento assustador, perdendo apenas para a China em volume de frota.

O problema é que cerca de 75% dessa frota está operando na clandestinidade. Muita gente entrou nesse mercado achando que era videogame, sem entender nada de agronomia ou de segurança de voo. Gabriel Colle, diretor executivo do Sindag, é taxativo sobre esse perfil de operador aventureiro que está sujando o mercado:

Na aviação agrícola levamos mais de 60 anos para dominar completamente a tecnologia de aplicação. Controlar uma gota que sai de uma aeronave a 300 km/h e fazê-la chegar no alvo correto exige muita técnica.”, reforça Gabriel Colle.

Alerta no agro: 75% dos drones agrícolas estão irregulares e contratação é crime ambiental

Essa falta de preparo criou um fenômeno triste no campo: o chamado “cemitério de drones“. O sujeito compra a máquina, não sabe fazer o manejo correto, não tem escala para pagar o investimento e acaba encostando o equipamento ou, pior, operando de qualquer jeito até causar um acidente.

O risco de cadeia e a tal da corresponsabilidade

Aqui é onde o calo aperta para o dono da terra. Tem muito produtor contratando serviço de drone “barateiro” achando que, se der problema, a culpa é só do piloto. Ledo engano. A legislação brasileira é clara sobre a corresponsabilidade. Se o operador clandestino causar uma deriva que mate a lavoura do vizinho ou atingir uma área de preservação, o dono da fazenda responde junto.

Colle não usa meias palavras para descrever a gravidade da situação:

“Primeiro, se você tem um drone de pulverização e você não fez o processo de regulamentação, você tá incorrendo em um crime ambiental. E aí vem uma notícia que não é muito boa. Crime ambiental no Brasil dá cadeia, né!”

Não estamos falando apenas de uma multinha da ANAC. Estamos falando de processo criminal. Para estar em dia, o equipamento precisa estar no sistema da ANAC e, fundamentalmente, registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Sem isso, você não consegue emitir o receituário agronômico legalizado. É o famoso “barato que sai caro“.

Céu congestionado: o perigo real de colisão

Alerta no agro: 75% dos drones agrícolas estão irregulares e contratação é crime ambiental

Se você acha que o céu é grande demais para dois equipamentos baterem, os dados deste início de 2026 vão te fazer mudar de ideia. Só nos primeiros dois meses deste ano, o Sindag já contabilizou quase 100 relatos de pilotos de aviões agrícolas que tiveram que abortar missões ou fazer manobras bruscas porque havia um drone clandestino “perdido” no meio do caminho.

Uma cena preocupante emuito comum: um avião carregado, voando baixo para garantir a eficiência da gota, e de repente dá de cara com uma hélice de drone operada por alguém que nem rádio tem para se comunicar. O risco de uma tragédia aérea é real e iminente. De acordo com informações técnicas da ANAC, a operação de RPA (Aeronaves Remotamente Pilotadas) em áreas rurais exige planos de voo e distanciamentos rígidos que quase ninguém na informalidade respeita.

O que esperar das tecnologias de aplicação daqui para frente

O drone veio para ficar, isso é fato. Ele é um aliado fantástico para o manejo de precisão, mas ele não substitui o avião e nem o autopropelido em grandes áreas. Enquanto um drone de 40 litros faz seus 35 hectares por hora, um avião agrícola dá conta de 600 hectares no mesmo tempo. A palavra de ordem é coexistência profissional.

Já estamos vendo a chegada dos VANTs de asa fixa autônomos, com capacidade para 300 litros. É tecnologia de ponta que vai exigir ainda mais seriedade. E pensnado nisso, o setor vai se reunir em peso agora em agosto, em Goianápolis (GO), no Congresso da Aviação Agrícola, para tentar colocar ordem na casa. Goiás, inclusive, já é a quarta maior frota do país e deve subir para a segunda posição em breve.

O drone vai aumentar, com certeza. É uma expectativa que a gente tem. Estamos trabalhando muito para levar lá os fabricantes e drones, os distribuidores, inclusive produtor que usa a tecnologia, aproveitar aqui para reforçar o convite pro evento. De 18 a 20 de agosto em Goianápolis, lá no condomínio Aeronáutico Libertica a 35 km de Goiânia.”, completa o diretor executivo do Sindag.

O recado para você, produtor, é simples: não deixe a porteira aberta para o amadorismo. Exija o registro no MAPA, peça o certificado da ANAC do operador e verifique se o plano de voo está correto. Proteger o seu patrimônio jurídico é tão importante quanto proteger a produtividade da sua soja ou do seu milho.

No fim das contas, a tecnologia só traz lucro se for acompanhada de responsabilidade. O improviso no céu brasileiro perdeu o prazo de validade.

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