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Vai visitar a capital do agronegócio brasileiro? Então conheça o linguajar cuiabano

Além de ser reconhecidamente a capital do agronegócio brasileiro e cidade mais quente do Brasil, o modo diferenciado de falar dos cuiabanos é notado facilmente pelo jeito único e irreverente. Com expressões, fonemas e vocabulários únicos, o jeito de falar que nasceu na capital mato-grossense se distingue dos outros sotaques do país.

Pesquisas e livros publicados sobre o linguajar cuiabano, afirmam que o jeito próprio de falar é o resultado de várias influências culturais, que resultaram nesse jeito único e peculiar de falar do povo cuiabano. Entre elas, influência indígena, de europeus e negros.

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Entre as peculiaridades do linguajar, o cuiabano tende a trocar o ‘ão’ ao fim das palavras por ‘on’ e substituir, em algumas sílabas, a letra ‘l’ por ‘r’.

A importância do dialeto é tão grande que foi reconhecida como patrimônio imaterial de Mato Grosso em 2013 e, desde então, passou a ser protegido pelo poder público por risco de desaparecer.

Cuiabá

Veja abaixo como seria o texto introdutório desta matéria se fosse escrito na versão cuiabana:

Prôxs que pediro e prôxs que num tom dando conta, essexs que num tom morano na djogada, num tem?

Aqui em batxo, tem quantía de palavreado do cuiabanêxs (Glossário Cuiabano) pé ratchado que tômo pubricano. Oxs que, ainda anssim, atchá compricado, pode recramá noxs comentário que nóixs exsprica, sem pobrema. Cherto?

Enton borá lá!

Abana mão – ato de saudar, cumprimentar. (abana mon).
Achegar – chegar (atchegá).
Agora dexsde quándo? – expressão que indica discordância.
Agora que que é esse?! – expressão de indagação.
Agregado – aquele que se estabelece em propriedade alheia, também usado para genro e nora.
Aguacêro – bastante água, poças de água.
Ah! Um – expressão que indica indignação, concordância ou não. É aplicada dependendo da situação, a entonação da voz muda.
Alambrado – cerca de arame.
Alembrar – lembrar.
Alfenim – massa de açúcar com amêndoas doces. Pessoa sensível. Intocável.
Aloito – luta corporal. (alôito)
Alumear – iluminar.
Apanhô prá bestêra – apanhou muito.
Arreio – chefe de tropeiros que, com estes, transporta mercadorias, em tropas de burros.
Arroz-de-festa – freqüentador assíduo de festas, não perde nenhuma festa.
Arrumar um encosto – encontrar alguém que o(a) sustente.
Assuntar- observar.
Atarantado – aturdido.
Atarracado(a) – abraçado, juntos.
Até na orêia – repleto, cheio, demais. (té norêia)
Aúfa- bastante, muito.
Azeite- bem feito, toma.
Badulaques – coisas de pequeno valor. Guardados.
Baguá – touro que se desgarra da fazenda e se torna selvagem, bravo.
Baita – enorme , excelente. (báita)
Baixeiro – saco de estopa que se colocam sob a carona.
Bambolê- chinelo de dedo.
Bamburrar – achar, o garimpeiro, uma pedra de valor.
Bandulho – briga.
Bassoura – vassoura.
Bejô, bejô, quem não bejô, não beja mais – Acabou, terminou. (bedjô)
Bêra – lado; de lado; intrometido.
Beradeano- contornando, ao redor.
Berrano – gritando.
Bingo – pênis.
Bocó de fivela – pessoa boba, burra, ignorante.
Bolacha – bolo achatado. (bolatcha)
Bom demás – muito bom. (bom demáxs)
Bonito prô cê – expressão que indica quando a atitude tomada, não foi boa.
Bóra- vamos embora.
Brechó – sapato frouxo, o cambaio.
Brocoió – bronco, tolo.
Bruaca – mala ou saco de couro cru, para transporte de carga em boi ou burro.
Brusco – nevoento, escuro (tempo).
Burrica – gangôrra.
Buscar – procurar.
Cabeça – inteligente.
Caçar caiaia- procurar problemas; procurar chifre na cabeça de cavalo.
Cachorrada – doce feito com leite coalhado. (catchorada)
Caínha – quem não dá nada prá ninguém. Sempre nega, egoísta.
Cambada – porção de peixe, em geral, de três a cinco, enfeixados com um cipó.
Canháem – latido de cachorro. Expressão usada para discordar.
Canivete – rapaz muito jovem.
Caramba – espanholismo. Interjeição designativa de espanto ou admiração.
Carne-de-pescoço – diz-se de pessoa tenaz, birrenta, implacável.
Cascar – descascar.
Casquete- boné, bôina.
Cata-mamona (ficar de) – ficar em atropelo, às voltas com a solução dos problemas.
Catcho – namoro, paquera, amante.
Catchorro – expressão de espanto de negação.
Catíça- muito, bastante, exagerado.
Caximbocó- vaia, apupo.
Cerradu – fechado, mas não trancado. Só encostado, o portão, a porta, a janela, etc.
Cêsso- ânus.
Cêpo – bom, ótimo. Grande.
Chá – café da manhã. (tchá)
Chambalé – camisola. (tchambalé)
Chá por Deus – expressão de espanto, admiração, dúvida. (tchá por Deuxs)
Chaté – baixote.
Chispa daqui – expressão que indica “caia fora”, pode ser usada também para espantar algum animal.
Chuva de caju – chuva em período de seca (julho, agosto), (tchuva do cadjú).
Coisa-ruim – o diabo.
Coloiado(a) – junto, próximo em grupo.
Comeu barata- pessoa que era bonita e ficou feia.
Constipação – gripe, resfriado.
Cordêro(a) – denominação de quem gosta de dar corda nas pessoas.
Coscorão – massa de pastel sem recheio.
Coxá – relação sexual. (cotchá)
Creança- criança. Também usado pra adolescentes, jovens e adultos. Basta a pessoa ser pelo menos uns 20 anos mais novo que a vovó, que ainda é creança.
Crem Deus Padre– expressão de espanto, assombro. (Creio em Deus Pai)
Cruz credo- expressão de nojo; espanto.
Cuia – vasilha da casca da cabaça.
Curtido – cínico.
Cutilada – cortada, golpe de faca.
Cutuba – muito bom.
Dar no padre – fraquejar.
De a pé – a pé.
De jápa – grátis, o que vem a mais. (djápa)
Demás – expressão usada para discordar.
Dereito – direito.
Despois- depois.
Despotismo – muito abundante.
Digoreste – ótimo, bom, exímio.
Disque – diz-se.
Dois-de-paus – pessoa apagada, sempre alheia à conversa, quando em grupo (parada igual a um dois de paus).
Duvidá- talvez.
Ê ah! – indagação.
É mato – abundante.
Embromador – tapeador.
Empachado- repleto, muito cheio, cheio (pop. cheio de fezes)
Empamonado – tutu de feijão.
Encasquetar- ter idéia fixa.
Entojado – farto, saciado.
Enton – Então.
Entupigaitado – desorientado.
Enxuito – enxuto.
Escuitar – escutar.
Espeloteado – desmiolado.
Espia lá – olha lá, veja. (exspía)
Espinhela caída – dor, problema na coluna vertebral.
Estar de lua – estar mal humorado.
Estrúdio – extravagante, esquisito.
Fazer de conta – fingir, supor.
Festá – festar, participar de festa. (fexstá)
Figa! – Deus me livre! (fíga)
Foló – folgado, largo.
Fruito- fruto.
Funda – estilingue, atiradeira.
Futxico – mexerico, fofoca.
Futxicaiada – muito futxico, excesso de mixirico, muita fofoca.
Fuzuê – confusão, bagunça.
Gandaia – cair na farra, adotar atitude suspeita.
Garrô – pegou, começou, realizou.
Grocotchó – pessoa mole, doente, desanimado.
Grulha – tapado, bronco.
Guri(a)- menino(a).
Hãããm – expressão de felicidade, algo foi bom.
Hamburgo – hambúrguer.
Imbicar- ir a algum lugar.
Imbricar – virar.
Incômodo – menstruação.
Intá – toma.
Invisive – grampo, grampo de cabelo.
Ir aos pés – evacuar.
Jacá – cesto de palha ou taquara para guardar peixe na beira do rio e manter vivo.
Janta – jantar.
Jápa – brinde. (djapa)
Jojar (ajojar)- juntar, namorar. (djodjar, adjodjar)
Jururú – Triste, quieto. (djururú)
Ladino – esperto, inteligente.
Lambido – cínico.
Lançar fora- jogar.
Larido(a)- guloso, esganado.
Lêpa- largo, grande, enorme.
Leva-e-tráz – fofoqueiro, bisbilhoteiro.
Levado – travesso.
Leviano – leve.
Levô os córno – complicou tudo.
Lonjura – longe, muito distante. (londjura)
Luma- lua.
Malemá – Mais ou menos.
Mamparrear – remanchar, usar de evasivas para fugir aos compromissos.
Manducar – comer.
Mano- mão na bola (futebol).
Mata-burro – ponte de tábuas espaçadas para impedir a fuga de animais.
Matula- marmita, comida prá viagem.
Matungo- moleque gordo, forte.
Mea orêa – minha orelha.
Micaje – ato de fazer imitação de alguém, fazer caretas.
Mininu – menino
Moage – frescura. (moadje)
Molóide – fraco.
Mujica – prato típico da região feito de peixe, muqueca.
Muriço: maciço (ouro maciço).
Muxiba – pelanca.
Muxirum – mutirão.
Não tá nem aí pá paçoca – não liga para nada. Não quer saber das conseqüências.
Nariz furado – veio na vontade, veio na certeza.
Na xinxa – levar uma ação com seriedade, pressionar. (tchintcha)
Negatófi – não, nunca.
Nhá cá- venha aqui.
Obra – fezes.
O quá – duvidar, não acreditar.
Orêia – pessoa burra.
Paçoca – farofa de carne de sol.
Padecer – sofrer.
Pampêro – confusão.
Panhar – ato de pegar algo.
Papo-de-peru – balão de soprar, bexiga de festa.
Paquete – menstruação.
Pastinha- franja.
Pá terra – cair.
Pau-rodado – pessoa de fora que passa a residir na cidade.
Peitudo – corajoso.
Pé-ratchado- expressão que indica que é cuiabano legítimo.
Perrengue – molóide, fraco.
Píço- mulher fácil, dada.
Pinchar – jogar fora.
Pitché- milho torrado, moído, com canela e açúcar.
Podre de chique – Bonito, elegante, bem vestido.
Pongó – bobo, tolo, idiota.
Por essa luz que me lomea – prá dizer que está falando sério, que não está mentindo.
Pousar – pernoitar.
Prá besteira – bastante, muito, em excesso.
Pranchei de banda – saí, escapei, tô fora.
Puxada – construção adicional, em prolongamento da casa.
Quá! – expressão de espanto, indignação.
Quarar – corar, pôr a roupa no sol para secar.
Quarta-feira – pessoa boba, idiota, parvo.
Que, que esse? – o que é isso.
Quebra-torto – desjejum com comida reforçada, como carne com arroz farofa, etc.
Que nem – tal como.
Quilo – fazer digestão após a refeição.
Quinco – denominação carinhosa de Joaquim.
Rabinha – frigideira.
Rapariga – meretriz.
Rapelô – levou tudo, ganhou tudo.
Rebuçar– cobrir o corpo com lençol ou cobertor, agasalhar, embrulhar.
Rebúça e Chúça – rebuçar é cobrir e chuçar (tchuça) é cotchá.
Refestelar – sorrir, rir, gargalhar.
Remedar – imitar, copiar.
Ressabiado – desconfiado.
Rinchar – ranger do carro de boi.
Rino na chá cara – rindo na presença de alguém. (rino na tchá cara).
Riscar – discar, telefonar.
Rufá – bater.
Sabença – sabedoria.
Saltaveaco- espécie de banana da terra, enorme.
Saluço – soluço.
Salvar – cumprimentar.
Sapear – assistir do lado de fora.
Sapicuá – saco de pano, dividido por uma abertura onde se guarda a matula, nos dois lados.
Sartei de banda – tô fora, não concordo, não quero mais.
Sem-graceira – falta de modos, sem graça.
Sepá- beijar.
Sinhô(a)- senhor(a).
Sis creança – essas crianças.
Sistrodia – outro dia.
Solon – sol muito quente.
Sombrinha – guarda-chuva usado como guarda-sol.
Subaco – suvaco.
Sucedeu – aconteceu.
Sujo que tá – imagem ruim, conceito ruim.
Supimpa – excelente, ótimo.
Sustância- com muita saúde, força. (comida com sustância)
Tacuru – fogão improvisado de três pedras. Onde se assentam a panelas.
Tá de tchico – está menstruada.
Tanchim- inquietação, não pára quieto. (tá com tanchim!)
Tchá mãe – expressão característica para xingar alguém.
Tchapa e cruz – expressão que indica o nascimento (tchapa) e a morte (cruz) em Cuiabá.
Tchêro – vagina.
Taludo – crescido desenvolvido fisicamente.
Tá té no chifre – embriagado, bêbado.
Tibi – cheiro.
Tóma corno(a) – expressão usada quando alguma coisa não acontece de forma correta.
Torá- ir a algum lugar.
Tralha – objetos de uso caseiro.
Trens – objetos, coisas.
Trepar – subir, escalar.
Tropicão – tropeção.
Ucharia – lugar nas festas, onde se colocam bebidas.
Vai tomá na peidera – vai se lascar.
Vai tomá na tarraqueta- vai tomá no cêsso.
Verdolengo(a) – fruta que está quase madura, meio verde.
Verter água – urinar.
Vídge – Exclamação, Nossa!
Vôte! – Deus me livre. Expressão de medo ou espanto.
Xaê – olha, espía aí.
Xispada – mandar embora, não deixar alguém num certo local.
Xixir- evacuar.
Xômano – cara, pessoa.
Xô Mano – cumprimento a um amigo, pessoa.
Zanzar – vaguear, andar sem rumo.

Patrimônio imaterial

A Portaria n° 17/2013, da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, tombou o linguajar cuiabano reconhecendo-o como patrimônio imaterial do Estado e, com isso, o dialeto fica oficialmente protegido pelo poder público do risco de desaparecer. Segundo a portaria, “o linguajar cuiabano é parte constitutiva da cultura de Mato Grosso, instrumento de saber que serviu como base para a consolidação da cultura regional e instrumento principal de comunicação entre as pessoas”.

A doutora em educação e pesquisadora Cristina Campos escreveu o livro ‘O Falar Cuiabano’, que traz histórias de pessoas que moram em lugares da capital onde o linguajar cuiabano ainda está presente. A obra aborda a herança dos indígenas e europeus, e os hábitos de falar dos cuiabanos que, muitas vezes pelo diálogo, são facilmente ‘descobertos’ pelo sotaque.

Cristina diz que existem alguns traços na pessoa quando ela é cuiabana, como a mistura de gêneros no modo de falar. “Vou lá no mamãe. As pessoas cuiabanas mesmo não falam: ‘eu vou lá na casa de mamãe’, por exemplo”. De acordo com a pesquisadora, é bem comum essa mistura de feminino com masculino, misturando os gêneros que são as marcas do falar cuiabano.

Outras características da nossa linguagem são a supressão de artigo: ‘papai foi lá’, ao invés de ‘o meu pai lá’. Outra característica são as consoantes fricativas, como th, dg. Ao invés de falar chuva, fala-se tchuva, o mesmo ocorre, por exemplo, com gente, quando fala-se: dgente. O rotacionismo, que é a troca de uma consoante pela outra, é muito forte entre os cuiabanos: é troca do r pelo l, como assembreia, crima, craro”, explica.

Segundo ela, foram duas as inspirações que a influenciaram a escrever o livro: o artista Liu Arruda e o poeta e escritor Silva Freire. “Quis valorizar o Liu Arruda porque ele foi uma pessoa que levou o dialeto cuiabano aos palcos e na época houve uma reação da cuiabania positiva e negativa ao mesmo tempo. Algumas pessoas se sentiram valorizadas e outras ofendidas porque achavam que ele estava debochando. E o Silva Freire, que é o maior poeta etnógrafo da cuiabania”.

Atualmente esse sotaque típico dos cuiabanos está ficando cada vez mais restrito às famílias mais antigas, tradicionais. A educadora acredita ser extremamente necessária a valorização das singularidades que estão sendo destruídas no planeta.

O capitalismo hoje avança sobre os últimos espaços naturais, as últimas fronteiras e é de uma forma implacável. E a cultura cuiabana, o dialeto cuiabano na sua fragilidade, necessita ser preservado ou ser registrado porque somos uma cultura de tradição oral. Quando você destrói uma paisagem ou expulsa uma comunidade de um determinado lugar, isso é para sempre. Se não teve registro, isso simplesmente vai desaparecer na história. É muito importante que isso seja valorizado, preservado, porque é a nossa história, a nossa cultura”, finalizou.

Por: Vicente Delgado – AGRONEWS, *Com informações de Xaê Xomano e TJMT

AGRONEWS – Informação para quem produz

 
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2 Comentários

    1. A maioria desses termos, aprendi no Paraná mesmo… Sem nunca ter sequer pensado em Mato Grosso… Antes mesmo de oferecerem terras matogrossenses à meus familiares…
      São termos do povo “caipira” de qualquer Estado desse nosso imenso Brasil…

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