Acabou a época da receita de bolo. Aplicar qualquer coisa porque o calendário mandou ou porque o balconista vendeu mais barato é o caminho mais rápido para o prejuízo. A genética de ponta elevou o teto produtivo das lavouras comerciais, mas cobrará um preço amargo na liquidez de quem errar a mão na hora de blindar a planta contra as pragas e doenças porteira para dentro.
A conta fechando no vermelho ou empatando no final do ciclo é o pesadelo de quem planta. Com os custos de produção espremendo as margens, o agricultor brasileiro sabe que tirar a soja ou o milho do campo hoje é um jogo de xadrez financeiro. O preço do diesel, o frete pesando e o valor dos insumos flutuando no mercado global acabam forçando o produtor a buscar uma eficiência quase milimétrica. E quem rodou pelos estandes da Tecnoshow Comigo 2026 lá em Rio Verde encontrou muito dessa realidade batendo na porta. A feira que acontece nesta segunda semana de abril deixou muito claro que o espaço para o amadorismo acabou.
Visitando o espaço da IHARA, empresa de tradição japonesa que está há mais de seis décadas rodando o Brasil, a conversa não foi sobre produtos milagrosos. O papo foi reto e técnico, focado em consultoria e entendimento do que realmente sangra o bolso do produtor. E no meio de especialistas de peso, o diagnóstico para quem planta no Cerrado foi bem direto. Acompanhe essa matéria especial.
O que trava o salto produtivo na hora da colheita
Ficar na média já não paga as contas faz tempo. Segundo Valdumiro Garcia, engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, o ponto de equilíbrio de uma lavoura no Cerrado gira na casa das 55 sacas por hectare. Ou seja, se você colher isso, o dinheiro apenas troca de mão para pagar o banco e os fornecedores, sem sobrar nada para investir na próxima safrinha.
Para a conta fechar no azul e garantir a saúde financeira da fazenda, a régua subiu. É preciso mirar lá nas 70 a 85 sacas por hectare. E chegar nesse número não é questão de sorte com a chuva, mas sim de proteger cada folha da planta. “Para alcançar elevados níveis de produtividade, ampliar a rentabilidade e a competitividade, o agricultor deve adotar tecnologias avançadas aliadas às boas práticas de manejo”, alerta o especialista, lembrando que o produtor que não investiga o que o vizinho está fazendo para colher mais acaba ficando para trás.
Semente cara não aceita desaforo de lagarta e fungo
Nós estamos plantando verdadeiras Ferraris hoje em dia. O melhoramento genético deu saltos absurdos e entregou uma semente com um teto de produção altíssimo. Só que essa máquina de alta performance é muito mais sensível. Se você colocar um combustível ruim ou deixar ela pegar poeira, o motor funde.
Valdumiro foi cirúrgico ao tocar nesse ponto da biotecnologia. “A genética, né, como eu disse para vocês, ela é cada vez mais específica, então quanto maior potencial produtivo, maior cuidado é demandado para essa planta“. É simples de entender. Se você comprou a melhor semente disponível no mercado, ela vai precisar de uma cama limpa e um ambiente livre de competição para entregar o vigor máximo.
Quando o inimigo rouba seu rendimento por metro quadrado
Aí entramos na dor de cabeça real do manejo diário. A mancha-alvo vem tirando o sono de muita gente, avançando ferozmente e podendo derrubar até 40% da produtividade se a aplicação atrasar. Só nos últimos seis anos, a incidência dessa doença pulou mais de 30% nas nossas roças.
Valdumiro Garcia, engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA
“Atualmente, cerca de 71% das lavouras brasileiras recebam aplicações voltadas ao seu controle. Apresentar uma nova tecnologia na Tecnoshow Comigo, reconhecida como um dos principais pontos de conexão do agronegócio, reforça o compromisso da IHARA em apoiar o produtor diante de desafios cada vez mais complexos”, ressalta Valdumiro. A aposta deles para limpar essa ameaça é o SEIV, um fungicida que promete segurar a onda com até 95% de controle e que pode colocar até três sacas a mais no seu caminhão no fim do dia.
E tem o ataque silencioso dos insetos sugadores. Pesquisas recentes divulgadas em plataformas como a Embrapa Soja mostram que a dinâmica populacional dos percevejos mudou muito. Um único percevejo por metro quadrado já é o suficiente para roubar quase uma saca inteira da sua produtividade por hectare. Para tentar estancar esse sangramento, a tecnologia do ZEUS apareceu com uma promessa de choque rápido e residual longo, servindo de escudo também contra a cigarrinha do milho.
Limpando a área sem machucar a fábrica da planta
De nada adianta usar um produto que mata a praga mas queima a sua lavoura no processo. O conceito de seletividade ganhou muito peso nas discussões técnicas. O capim pé-de-galinha e o caruru estão rindo dos tratamentos tradicionais pós-emergentes em várias regiões.
A saída que vem ganhando força é resolver o problema antes do mato aparecer, usando pré-emergentes como o Yamato. Valdumiro resumiu bem o porquê disso ser fundamental para a planta não gastar energia à toa recuperando dano de herbicida. “A seletividade é muito importante para que eu elimine a perda por mato competição, mas também não impacte a fábrica que eu tenho dentro da planta com esse produto“, complementa.
Atirando no escuro não se salva a margem financeira
Acabou a época da receita de bolo. Aplicar qualquer coisa porque o calendário mandou ou porque o balconista vendeu mais barato é o caminho mais rápido para o prejuízo. O nível de infestação e o tipo de praga mudaram. O percevejo barriga-verde, que antes ficava quietinho no milho, agora ataca a soja sem dó.
O diagnóstico na lavoura precisa ser feito com a bota suja de terra, olhando a folha de perto. “Cada vez mais nós precisamos de conhecer o alvo. Lembra pra história do percevejo que eu falei há pouco para vocês? Percevejo não é mais tudo a mesma coisa, qual percevejo eu tenho, qual lagarta eu tenho, qual é a doença, qual é a variedade, qual é a janela de plantio. É necessário fazer isso e posicionar a solução adequada para cada momento“, enfatiza o gerente da IHARA.
Valdumiro finaliza explicando que a agricultura está cada vez mais competitiva e específica:
Novos patamares de produtividade demandam capricho nos detalhes – Acima de 70 scs/ha todo detalhe importa!
Genética e biotecnologia voltadas para o ambiente de produção – Cada variedade e ambiente demandam estratégias distintas no manejo de doenças.
Controle efetivo com seletividade – Avanço da resistência de plantas daninhas exige novas estratégias com pré emergentes.
Conhecimento dos alvos e adoção da melhor solução para cada momento – Dinâmica de ciclo e espécies de percevejos tem desafiado as estratégias usuais de manejo.
O recado que fica dessa aula que tivemos na Ihara, e pela movimentação na Tecnoshow, é que o futuro vai exigir um planejamento impecável. Com mais 22 novos ativos no forno para os próximos anos, a indústria está fazendo a parte dela. Mas da porteira para dentro, quem dita o sucesso é o olho clínico do produtor, entendendo que colher bem hoje é, acima de tudo, não deixar o lucro escapar pelo ralo dos erros de manejo.