O cenário atual do mercado de trigo no Brasil revela uma dinâmica complexa, onde fatores locais de oferta e logística superam, momentaneamente, as tendências de baixa observadas nas bolsas internacionais
Enquanto o mercado externo sinaliza desvalorização, o produtor e o consumidor brasileiro enfrentam uma realidade de preços em ascensão, sustentada por um desequilíbrio clássico entre a disponibilidade do produto e a necessidade de moagem.
O Gargalo da Oferta e a Logística da Safra
O principal motor da alta dos preços reside na oferta restrita, característica do período de entressafra. No entanto, este ano, o fenômeno é acentuado por uma questão de prioridade operacional no campo. Com a colheita da soja em pleno vapor, os produtores brasileiros estão com o foco voltado para a oleaginosa, que demanda grande esforço logístico e capacidade de armazenamento.
Como resultado, a disponibilidade de trigo no mercado físico diminuiu drasticamente. Os vendedores que ainda possuem lotes remanescentes da safra passada mostram-se pouco inclinados a negociar, a menos que os compradores aceitem valores significativamente mais elevados. Essa postura defensiva do lado da oferta cria um vácuo no mercado spot, forçando os moinhos a buscarem o cereal de forma mais agressiva.
Demanda Firme e a Influência do Câmbio
Do outro lado da ponta comercial, a demanda permanece resiliente. Os compradores, representados majoritariamente pela indústria de moagem, encontram-se em um momento de recomposição de estoques. Para garantir a continuidade da produção de farinhas e derivados, esses agentes têm aceitado pagar prêmios sobre os preços anteriormente praticados, uma vez que a segurança do suprimento sobrepõe-se à estratégia de barganha no curto prazo.
Dois fatores macroeconômicos reforçam esse isolamento do preço interno em relação à queda no CME Group (Bolsa de Chicago):
Dólar: O avanço da moeda americana frente ao Real encarece a importação do trigo, tornando o cereal produzido internamente mais competitivo, porém mais caro;
Preços Argentinos: A Argentina, principal fornecedora externa do Brasil, também tem registrado cotações elevadas, elevando o “custo de substituição” do trigo brasileiro.
Reflexos na Indústria: Farinhas vs. Farelo
O impacto dessa pressão de custos já está sendo repassado para a cadeia produtiva. Agentes de moinhos indicam que o mês de abril será marcado por reajustes positivos nos preços das farinhas. Esse movimento é uma resposta direta à alta do grão e à perspectiva de que a próxima safra possa ter uma produção menor, mantendo a oferta apertada por um período prolongado.
Curiosamente, o subproduto do trigo, o farelo, percorre o caminho inverso. Apesar de estarmos no período da Quaresma — época em que o consumo de peixe aumenta e, consequentemente, a demanda por ração deveria sustentar os preços — as cotações do farelo de trigo seguem em queda. Clique aqui e acompanhe o agro.
Isso ocorre devido à forte concorrência de outros insumos. Com as safras recordes de soja e milho no Brasil, a oferta de farelo de soja e de milho é abundante e competitiva. Como esses produtos são substitutos diretos na formulação de rações animais, a pressão de baixa desses grãos acaba “contaminando” o mercado de farelo de trigo, que perde espaço e valor frente aos concorrentes mais baratos.