A 30 metros de profundidade, operação em Londres converte abrigos antiaéreos em lavouras de ciclo ultrarrápido, mas a conta de energia é o novo “clima” a ser monitorado.
Para o produtor que está acostumado a olhar para o céu antes de tomar qualquer decisão no campo, a ideia de uma lavoura onde a previsão do tempo é irrelevante soa quase como heresia. Mas em um cenário onde a logística urbana trava o escoamento e o consumidor exige frescor imediato, uma iniciativa em Londres resolveu virar a lógica agronômica de cabeça para baixo, literalmente.
A cerca de 30 metros (ou 100 pés) abaixo da superfície, sob a estação de metrô Clapham North, antigos túneis que serviram de abrigo antiaéreo durante a Segunda Guerra Mundial e ficaram décadas abandonados, agora abrigam uma operação agrícola de alta precisão. Não é apenas uma curiosidade urbana; é um teste de fogo sobre eficiência de espaço e controle absoluto de variáveis.
O manejo onde o sol é artificial
A operação, conhecida como “Growing Underground“, utiliza o espaço cilíndrico dos túneis para maximizar a área plantada. Diferente de uma estufa convencional, onde a luz solar dita o ritmo, aqui o controle é 100% via LEDs. E há um detalhe técnico no manejo térmico que chama a atenção de quem entende de climatização de ambientes protegidos.+
Como explicado aos visitantes ao local, a eficiência energética vai além da fotossíntese. Os LEDs utilizados emitem pouco calor para baixo (em direção às plantas), o que permite empilhar as bandejas de cultivo muito próximas umas das outras, compactando a produção. O calor é dissipado pela parte traseira das lâmpadas, o que ajuda a aquecer o túnel isolado, criando um ciclo térmico eficiente. É o tipo de aproveitamento de recurso que faz diferença na planilha de custos operacionais.
A ‘Smart farming’ era um terreno novo para nós e fomos pioneiros nesse modelo – então, ter Cambridge avançando forte na parte de dados foi o que realmente nos convenceu dos benefícios de captar e utilizar essas informações para resolver os desafios de sustentabilidade que enfrentávamos.” – Richard Ballard, cofundador da Growing Underground.
Ciclo de 7 dias e o dilema do custo
Agronomicamente falando, a hidroponia permite cultivar praticamente qualquer coisa. Mas, como todo produtor sabe, “poder plantar” é diferente de “dar lucro”. A escolha das culturas nessa fazenda subterrânea — focada em microverdes, brotos de ervilha (pea shoots) e vegetais baby – não é aleatória; é uma estratégia pura de fluxo de caixa.
Durante a operação, os responsáveis técnicos deixam claro o gargalo econômico: “É possível cultivar qualquer coisa com hidroponia, mas a questão do tempo obviamente afeta o custo”. Culturas de ciclo longo exigiriam uma quantidade de energia elétrica inviável. Por isso, o foco está em ciclos extremamente curtos. “Algumas culturas podem crescer em sete dias”.
Para quem trabalha com soja ou milho e espera meses pela colheita, pensar num giro de estoque semanal é algo fora da curva. Isso garante liquidez e diminui o risco de mercado, já que o planejamento pode ser ajustado quase que semanalmente de acordo com a demanda dos compradores.
Logística “Porteira-Restaurante”
O grande trunfo dessa operação, no entanto, é o que chamamos de encurtamento da cadeia. Enquanto no Brasil sofremos com estradas ruins e fretes que corroem a margem, a fazenda londrina transformou a localização central em seu maior ativo.
O produto não precisa viajar centenas de quilômetros em caminhões refrigerados. A colheita é feita no subsolo e, segundo a equipe local, pode ser “entregue na porta do restaurante em 24 horas”. Esse frescor tem um prêmio no preço final (o famoso ágio), essencial para pagar a conta de luz salgada que mantém os LEDs ligados.
O que o produtor brasileiro tira disso?
É óbvio que não vamos sair cavando buracos no Mato Grosso ou em Goiás para plantar alface. Temos sol de sobra e terra fértil. Mas a lição que fica da Growing Underground é sobre a intensificação do uso do espaço e a gestão de variáveis.
Seja em fazendas verticais urbanas ou no pivô central no interior de Minas, o futuro do agro passa pela precisão. Lá embaixo, eles controlam cada fóton de luz e cada gota de nutriente. Aqui fora, nosso desafio é usar a tecnologia para blindar a lavoura das oscilações climáticas e de mercado. No fim do dia, seja no túnel ou no talhão, o que manda é a eficiência da porteira para dentro.