Escalada militar no Golfo Pérsico empurra combustíveis e alimentos para cima enquanto Brasil busca alternativas urgentes para fertilizantes e diesel
Quando os primeiros mísseis americanos e israelenses cruzaram o céu de Teerã na madrugada de 28 de fevereiro, poucos brasileiros imaginaram que aquela operação militar batizada de ‘Fúria Épica’ mudaria o preço do arroz, do feijão e do litro de gasolina por aqui. Mas mudou. Dezenove dias depois, com o Estreito de Ormuz parcialmente bloqueado e o barril de petróleo beirando os 110 dólares, a guerra que parecia distante já bate à porta de cada família brasileira toda vez que alguém vai ao supermercado ou enche o tanque do carro.
A porta estreita por onde passa nossa comida
O Estreito de Ormuz é um nome que poucos brasileiros conheciam até três semanas atrás. Agora, esse corredor marítimo de apenas 33 quilômetros de largura virou protagonista involuntário da nossa inflação. Por ali passa 20% de todo o petróleo mundial e boa parte dos insumos que mantêm a agricultura brasileira funcionando.
Desde o início dos ataques coordenados entre Washington e Tel Aviv, o Irã estabeleceu um bloqueio de fato na região. Navios cargueiros hesitam, seguradoras multiplicam taxas, rotas são desviadas. O resultado é matemático e cruel: tudo fica mais caro. O petróleo tipo Brent, que custava 70 dólares o barril em janeiro, disparou para 110 dólares. Algumas fontes reportam picos de até 126 dólares em momentos de maior tensão.
Para o Brasil, dependente de diesel importado e de fertilizantes que vêm justamente daquela região conturbada, o impacto é imediato. O chanceler Mauro Vieira apresentou ao Senado Federal, em 18 de março, um panorama preocupante: nossa dependência desses insumos torna o país vulnerável a qualquer oscilação no Oriente Médio. E desta vez, não se trata de oscilação. É um terremoto.
Dezenove dias que viraram meses
A guerra que Donald Trump prometeu que seria rápida e cirúrgica já dura quase três semanas, sem perspectiva de término à vista. O que começou com a morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei no primeiro dia de bombardeios transformou-se numa espiral de violência que consome vidas e recursos em velocidade assustadora.
Os números oficiais falam por si: mais de 2.000 mortos até agora, sendo 1.444 apenas no Irã, 912 no Líbano, 17 em Israel e 13 militares americanos. Mas para além das estatísticas, há histórias que chocam pela brutalidade. A Anistia Internacional confirmou em 16 de março que um míssil Tomahawk americano atingiu uma escola primária na cidade de Minab, matando pelo menos 170 pessoas, a maioria crianças entre 6 e 12 anos.
Enquanto isso, Israel segue eliminando lideranças iranianas num ritmo quase semanal. Depois de Khamenei, foi a vez de Ali Larijani, chefe de segurança nacional, em 17 de março. No mesmo dia, o comandante das forças Basij, Gholamreza Soleimani, também foi morto. Um dia depois, em 18 de março, caiu Esmail Khatib, ministro da Inteligência iraniana. Cada morte de um líder iraniano resulta em promessas de vingança e novos ataques retaliatórios.
O Irã respondeu à altura. Em 4 de março, o submarino americano USS Charlotte afundou a fragata iraniana IRIS Dena no Oceano Índico, matando 87 marinheiros. Mas os iranianos demonstraram capacidade de resposta surpreendente. Em 18 de março, mísseis balísticos iranianos atingiram Ras Laffan, no Qatar, a maior instalação de exportação de gás natural liquefeito do mundo. O terminal já havia sido atacado em 2 de março e, desta vez, sofreu ‘danos extensos’, segundo autoridades qataris. Aquele complexo responde sozinho por 20% do fornecimento global de GNL.
O efeito dominó que chega às nossas prateleiras
No Brasil, o impacto dessa guerra se manifesta de forma insidiosa, quase invisível no primeiro momento, mas devastadora quando se acumula. Começa no diesel, combustível essencial para o transporte de cargas. Com os preços internacionais disparando, a Petrobras enfrenta pressão para reajustar valores na bomba. Caminhoneiros já ensaiam protestos. O fantasma de 2018 ronda o Planalto.
Mas o diesel é apenas o começo. Os fertilizantes, fundamentais para a safra brasileira, também chegam daquela região. Ureia, fosfato, potássio: ingredientes que transformam terra em comida. Com as rotas comerciais comprometidas e os países produtores focados em estocar para si mesmos em tempos de guerra, o Brasil corre o risco de enfrentar escassez justamente na época do plantio.
Especialistas do agronegócio já fazem contas sombrias. Se a guerra se prolongar por mais algumas semanas, o custo de produção de alimentos básicos pode subir entre 15% e 25%. Isso significa arroz, feijão, carne e pão mais caros nos próximos meses. A inflação, que vinha sendo controlada com algum sucesso pelo Banco Central, ganha combustível novo e poderoso.
Pequenos agricultores são os primeiros a sentir o baque. Seu Joaquim, produtor de milho no interior de Goiás, já viu o preço do saco de fertilizante subir 30% desde março. ‘Se continuar assim, vou ter que repensar o que plantar. Ou até se vou plantar’, diz ele, enquanto olha para os 40 hectares que trabalha há três décadas. Sua história se repete em milhares de propriedades pelo país.
A diplomacia brasileira entre a cruz e a espada
O governo brasileiro adotou postura de condenação aos ataques, mas com cautela cirúrgica. O Itamaraty rejeitou participar do chamado ‘Conselho de Paz’ proposto por Trump, iniciativa vista por Brasília como mero verniz diplomático para operação militar questionável. Segundo fontes do governo, a operação ‘acaba com qualquer resquício de legitimidade’ da proposta americana.
A preocupação imediata é com os brasileiros na região. Estima-se que dezenas de milhares de nossos compatriotas vivam e trabalhem no Oriente Médio, concentrados principalmente no Líbano, Emirados Árabes Unidos e Israel. O Itamaraty trabalha em planos de repatriação emergencial, mas a logística é complexa com aeroportos sob ameaça e rotas aéreas limitadas.
Enquanto isso, a renúncia de Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, em 17 de março, jogou lenha numa fogueira diplomática já bastante acesa. Kent afirmou em carta pública que o Irã não representava ameaça iminente e que a guerra começou ‘devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano’. A declaração dividiu até mesmo os apoiadores de Trump e expôs fissuras na aliança ocidental.
Aliados tradicionais dos Estados Unidos na Europa recusaram enviar tropas ou navios para o Estreito de Ormuz. Alemanha, França e Itália disseram não publicamente. Kaja Kallas, alta representante da União Europeia, foi direta: ‘não há apetite’ na Europa para essa guerra. Trump respondeu com ameaças veladas, dizendo que ‘vamos nos lembrar’ de quem não apoiou Washington. A OTAN, baluarte da aliança ocidental desde a Segunda Guerra Mundial, vive momento de tensão inédita.
A China observa e sorri
Enquanto Washington e Teerã se enfrentam, Pequim observa com interesse estratégico. Analistas internacionais apontam que a China se beneficia diretamente do atoleiro americano no Golfo Pérsico. Com os Estados Unidos distraídos e recursos militares concentrados no Oriente Médio, a pressão sobre Taiwan e o Mar do Sul da China diminui.
Mais que isso: a China recusou colaborar com esforços americanos para reabrir o Estreito de Ormuz, apesar de também depender daquela rota para importações energéticas. A aposta chinesa parece ser que o conflito prolongado enfraquece Washington geopolítica e economicamente, abrindo espaços para Pequim expandir sua influência.
Para o Brasil, essa dinâmica é duplamente complicada. Como grande parceiro comercial da China, Brasília torce por estabilidade nas relações sino-americanas. Mas a guerra no Golfo Pérsico joga areia nessa engrenagem, forçando o país a escolhas desconfortáveis em fóruns internacionais.
O fato de Trump ter adiado visita oficial à China por conta da guerra expõe um cálculo errado da Casa Branca sobre a duração do conflito. O que deveria ser operação de poucos dias transformou-se em compromisso militar sem data para acabar, com custos humanos, econômicos e diplomáticos crescendo exponencialmente.
O que vem pela frente
Especialistas brasileiros consultados pela Comissão de Relações Exteriores do Senado são unânimes: não há solução militar rápida à vista. O general português Agostinho Costa, em análise para veículos brasileiros, avaliou que o Irã mantém capacidade de resistência significativa. Apesar de ter sofrido danos em infraestrutura militar, os iranianos ainda controlam arsenais de mísseis e usam tecnologia de satélites chineses BeiDou para ataques precisos contra bases americanas.
O debate se divide entre análise tática e estratégica. Taticamente, Estados Unidos e Israel degradaram capacidades militares iranianas. Estrategicamente, porém, não há vitória definitiva à vista. O regime em Teerã não caiu, a população iraniana não se rebelou em massa como Trump esperava, e o custo da guerra só aumenta.
Relatos contraditórios chegam do Irã. Há vídeos de iranianos dançando perto de locais bombardeados, agradecendo aos americanos como ‘libertadores’. Simultaneamente, funerais massivos em Teerã para as autoridades mortas geram mobilização pró-regime. A seleção feminina de futebol do Irã buscou asilo na Austrália, símbolo das divisões internas do país. Mas transformar essa insatisfação difusa em mudança de regime é tarefa completamente diferente.
Enquanto a guerra não termina, brasileiros comuns pagam a conta. Cada dia adicional de conflito significa mais pressão inflacionária, mais incerteza para agricultores, mais custo para transportadores. A guerra pode estar a 12 mil quilômetros de distância, mas seus efeitos já estão dentro da nossa casa.
O conflito que começou em 28 de fevereiro não dá sinais de acabar tão cedo. Enquanto mísseis cruzam céus distantes e diplomatas trocam acusações em salas refrigeradas, o brasileiro comum já sente no bolso o peso de uma guerra que não escolheu. O desafio do Brasil agora é duplo: proteger seus cidadãos na região e proteger sua economia dos choques externos. Buscar fontes alternativas de fertilizantes, diversificar fornecedores de diesel, construir estoques estratégicos – tudo isso deveria ter sido feito ontem. Enquanto isso não acontece, resta torcer para que a razão prevaleça sobre a força no Golfo Pérsico. Mas, infelizmente, a história recente não autoriza muito otimismo.
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