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Programa inovador muda jeito de aplicar defensivos no RS

Vicente Delgado
16/03/2026 às 13:15
Programa inovador muda jeito de aplicar defensivos no RS

A renovação obrigatória dos certificados de aplicação e o avanço dos drones exigem que o produtor ajuste o manejo porteira para dentro para evitar prejuízos e passivos milionários.

O telefone toca logo cedo e a notícia não é nada boa para o caixa da fazenda. Um vizinho relata que a parreira de uvas dele amanheceu com as folhas retorcidas, um sintoma clássico de intoxicação severa. Você logo puxa na memória o que foi feito na sua lavoura nos últimos dias e lembra daquela aplicação de herbicida para limpar a área antes do plantio. O vento estava um pouco mais forte do que devia, a temperatura passando dos 30 graus, e o produto simplesmente viajou quilômetros pelo ar. A conta dessa deriva vai chegar e ela costuma ser pesada, engolindo a liquidez de toda a sua safra em indenizações e multas ambientais.

Esse tipo de dor de cabeça se tornou o estopim para uma verdadeira revolução silenciosa que vem tomando conta das propriedades rurais gaúchas. Durante a intensa movimentação da Expodireto Cotrijal no município de Não-Me-Toque, o estande da Corteva Agriscience virou palco de um debate urgente sobre como proteger o bolso do produtor e a saúde das lavouras. Foi lá que tivemos a oportunidade de falar com Adriano Arrué Melo, Doutor em Engenharia Agrícola e professor do Departamento de Defesa Fitossanitária da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que destrinchou o impacto prático de uma lei que mudou as regras do jogo no estado.

Programa inovador muda jeito de aplicar defensivos no RS

A exigência de capacitação para quem opera o pulverizador deixou de ser uma recomendação técnica para virar uma barreira de proteção financeira e legal.

O verdadeiro peso da deriva no custo de produção

Para entender o tamanho da pressão sobre o agricultor, precisamos olhar para as culturas de alto valor agregado que dividem o mapa com a soja e o milho no Rio Grande do Sul. Lavouras de oliveiras, macieiras e videiras são extremamente sensíveis a herbicidas hormonais como o 2,4-D. Quando o produto escapa da área alvo, o prejuízo não é apenas do vizinho. O produtor que aplicou errado perde a eficiência do insumo caro que comprou, joga dinheiro fora e ainda atrai a fiscalização pesada para dentro da sua propriedade.

Foi exatamente para estancar essa sangria financeira e os conflitos regionais que a Secretaria da Agricultura consolidou a Instrução Normativa SEAPDR nº 42/2021. As regras criaram um crivo rigoroso. Agora, antes de bater a chave do trator, o operador precisa garantir que o vento esteja abaixo de 10 km/h, a umidade do ar acima de 55% e a temperatura ambiente inferior a 30ºC. Qualquer aplicação fora dessa janela climática aumenta exponencialmente o risco do produto volatilizar e o produtor se tornar alvo de sanções. Além disso, existe a obrigação de relatar os dados da operação ao governo em até 96 horas ou 10 dias úteis, criando um rastro digital de toda a movimentação de auxinas sintéticas no campo.

A sala de aula salvando a margem da safra

Criar leis e aplicar multas nunca resolveu o problema estrutural da falta de mão de obra qualificada. A grande virada de chave está acontecendo através da educação continuada, forçando o setor a profissionalizar quem realmente coloca a mão na massa. A legislação passou a exigir um curso de 16 horas, dividindo o tempo igualmente entre a teoria e a calibração prática dos equipamentos no campo.

Nessas horas de treinamento intensivo, o trabalhador aprende a regular a pressão correta, escolher a ponta de pulverização ideal e fazer a manutenção preventiva. O professor Adriano vê essa dinâmica como uma ponte essencial para o agronegócio, levando informações validadas por instituições de pesquisa diretamente para quem toma a decisão na lavoura.

Esse curso possibilita levar principalmente o que a gente gera dentro da universidade pro produtor e para quem realmente precisa desse tipo de informação. Então eu acho que é um projeto muito importante nesse sentido: poder conectar a universidade com a sociedade, cumprindo o papel que nós temos lá”, afirmou o pesquisador durante o encontro.

R$ 6 milhões investidos em Boas Práticas Agrícolas

A conta de uma pulverização malfeita não perdoa o caixa da fazenda e é justamente para estancar essa perda financeira oculta que a Corteva Agriscience trouxe a solução para a rotina do campo com o Programa de Aplicação Responsável (PAR). Essa iniciativa formou uma aliança técnica de peso com a Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais da Unesp e já direcionou mais de R$ 6 milhões em capacitações desenhadas para a realidade do Rio Grande do Sul.

Programa inovador muda jeito de aplicar defensivos no RS

Na prática, mais de mil agricultores gaúchos apenas neste ano pararam suas atividades rotineiras para entender como as normas rigorosas da Secretaria de Agricultura impactam diretamente no custo de produção. Quando a equipe aprende a regular a pressão exata do maquinário e entende a janela climática perfeita para entrar no talhão, o defensivo atinge o alvo biológico com precisão máxima, garantindo que aquele insumo caríssimo não vá parar na propriedade vizinha pela deriva ou evapore antes de proteger a planta.

Os módulos práticos dessa capacitação pegam pesado na obrigatoriedade dos Equipamentos de Proteção Individual, desconstruindo a resistência e aquele papo antigo de que o traje de segurança atrasa o manejo diário. Os instrutores vêm demonstrando de forma muito clara que blindar a saúde de quem aplica o produto afasta o pesadelo de processos trabalhistas milionários que costumam assombrar e até quebrar o produtor rural. Ao casar o cuidado humano com a otimização dos recursos na lavoura, o projeto entrega o mapa da mina para uma operação sustentável de verdade, onde cada gota aplicada se reverte em rentabilidade líquida e certa no final da colheita.

O primeiro grande ciclo de renovação técnica

Os resultados desse esforço conjunto já aparecem nos números e na mudança de postura porteira para dentro. Cerca de 32 mil profissionais já passaram pelos treinamentos no Rio Grande do Sul, cobrindo quase metade da força de trabalho estimada de 60 a 80 mil aplicadores. Como o certificado tem validade de cinco anos, as primeiras turmas de 2019 e 2021 já estão voltando para as salas de aula buscando renovar o documento.

Essa reciclagem tem mostrado um amadurecimento técnico impressionante. O aplicador que antes sentava na cadeira apenas para cumprir tabela agora chega com as planilhas de custo na cabeça, buscando entender como extrair o máximo de cada gota de defensivo.

“O que a gente nota nesses cursos onde o cara já fez uma vez o curso, principalmente que ele já tem muita bagagem de tecnologia de aplicação e ele vem com dúvidas mais específicas, com questões mais técnicas, ou seja, ele já tá refinando a tecnologia dele”, relatou o professor.

A verdade nua e crua sobre o uso de EPI e defensivos

Saindo da parte mecânica e entrando no fator humano, a resistência ao uso do Equipamento de Proteção Individual (EPI) ainda é um calcanhar de Aquiles nas fazendas. O calor excessivo costuma ser a principal desculpa para o operador deixar os itens de segurança de lado, gerando um risco letal para si mesmo e um passivo trabalhista gigantesco para o dono da propriedade.

A abordagem para quebrar essa barreira cultural precisa ser direta e empática. Durante os cursos, a linguagem técnica cede espaço para analogias simples do dia a dia rural.

Eu tento explicar isso, principalmente de maneira mais lúdica pro produtor, para ele entender por analogias a importância que o EPI tem […] o produto ele tem um grau de toxicidade, então ele é feito para proteger a cultura, ele não é feito para nos proteger, então ele tem que ser aplicado de maneira correta”, exemplifica Adriano.

Ele também faz questão de combater a desinformação urbana sobre o uso dos químicos na agricultura, reforçando que o produtor não aplica produtos caros por esporte. A conta precisa fechar e a sanidade da lavoura depende dessas ferramentas para garantir rentabilidade.

Programa inovador muda jeito de aplicar defensivos no RS

Não tem como nós produzirmos commodities em larga escala sem lançar mão desses produtos, que são o que vão permitir com que as nossas novas cultivares expressem todo o seu potencial produtivo”, enfatizou, lembrando do rigor toxicológico exigido no Brasil.

O perigo invisível voando baixo nas lavouras

Enquanto os tratores melhoram sua eficiência no solo, o céu das fazendas ganha novos habitantes. A pulverização com drones explodiu em adoção, puxada fortemente pela facilidade de entrada nas áreas alagadas de arroz irrigado. O problema é que o custo acessível dessas aeronaves atraiu muita gente de fora do agro enxergando apenas a oportunidade de faturar com prestação de serviço, ignorando completamente as leis da agronomia.

Colocar um equipamento no ar sem entender a dinâmica do vento ou a interação dos produtos na calda é a receita perfeita para o desastre financeiro. O professor toca nesse ponto com muito bom humor, mas deixando um alerta seríssimo para quem contrata esse tipo de serviço sem verificar a procedência do operador.

Hoje a gente diz que o principal problema que a gente tem com a aplicação de drones é na pecinha atrás do controle, ali que tá um dos principais problemas. E, é quando a gente tem visto os riscos de aplicação”, cravou.

Diante dessa nova ameaça, o governo estadual já começou a treinar seus fiscais especificamente para monitorar e auditar as rotas e os planos de voo desses drones. A fiscalização vai ficar cada vez mais apertada, exigindo que o produtor rural seja o primeiro a cobrar profissionalismo de quem entra na sua área.

O movimento capitaneado por universidades, governo e empresas como a Corteva mostra que a agricultura rentável do futuro não aceita mais amadorismo. O conhecimento embarcado no trator, na aeronave e, principalmente, na mente de quem opera as máquinas, é o que vai garantir a segurança jurídica e a margem de lucro no final da safra.

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Corteva defensivos Expodireto

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