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Morte de peixes no Manso pode ter sido crime ambiental, avalia Peixe BR

Inversão térmica associada ao baixo nível do lago de Manso, pode ter ocasionado a morte de quase 100 toneladas de tilápia – peixe de cultivo, causando um prejuízo na ordem de R$ 700 mil reais aos produtores da região. Esta situação pode se tratar de um “crime ambiental” na avaliação da Peixe BR. Leia a matéria completa e entenda a situação.

Morte de peixes no Manso

Quase cem toneladas de tilápia, uma das espécies de peixe mais consumida no mundo, foram retiradas mortas, nesta semana passada (05), do Lago do Manso, um dos pontos turísticos mais conhecidos da baixada cuiabana. Se não bastasse os constantes ataques de piranhas aos banhistas, empresários da piscicultura, que formam o Condomínio Rural, amargam prejuízos com a mortandade que chega a R$$ 700 mil reais. Outro empreendimento, que também possui tanques na mesma região teve cinco toneladas de peixes mortos.

As imagens são impressionantes, assista o vídeo abaixo que mostra os peixes mortos nos tanques:

De acordo com a bióloga Daniela Maimoni de Figueiredo, professora do Mestrado em Recursos Hídrico da Universidade Federal de Mato Grosso, uma inversão térmica, provocada pela frente fria, que chegou a registrar 6º graus em Chapada dos Guimarães, pode ter sido a causa da morte dessa grande quantidade de pescado no Lago do Manso, que fica a 90 km de Cuiabá. “Como fez muito frio e ventou muito a camada superior do reservatório, que geralmente é mais quente, e o fundo mais frio, essa camada superior com a queda de temperatura fica mais fria que o fundo do lago. Com isso, as camadas de água do reservatório se misturam e nisso você não tem mais a estratificação de temperatura, ou seja, fica tudo com uma temperatura mais fria, e vem mais material do fundo em decomposição sem oxigênio, matéria orgânica, inclusive teve relato de pessoas que sentiram mau cheiro nas águas”, afirma Daniela.

O empresário Junior Vidotti, presidente do Condomínio Rural do Manso, perdeu todo o estoque dos tanques. Além da queda de temperatura, na semana passada, ele atribui que a falta de chuva tem ocasionado a queda no volume de água no reservatório, que hoje está bem abaixo da metade de sua capacidade total, como um dos fatores que provocaram a morte dos animais. “O reservatório nunca esteve no nível tão baixo de água como está agora, e isso tem preocupado muito, por que corre risco de mais peixes morrerem”, alerta Vidotti.

Possibilidade de crime ambiental

A mesma análise é feita por Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura – Peixe BR. Para Medeiros nesta situação, pode se tratar de um “crime ambiental” já que o baixo nível do volume útil de Manso, associado a inversão térmica, potencializou os efeitos e ocasionou a mudança das características físico-químicas do lago. “Para quem conhece, o lago do Manso é azul e transparente e de um dia para o outro ele ficou totalmente marrom. Todo o fundo subiu, o volume de água era pouco e não conseguiu fazer a diluição e nós tivemos uma falta de oxigênio, levando a mortalidade dos peixes de cultivo. O problema foi tão grave que nós tivemos também a mortalidade dos peixes nativos.“, explica o presidente da Peixe BR.

Medeiros alerta ainda para a continuidade da situação, já que o nível do lago de Manso continua baixo e outras fatalidades podem acontecer. “Isso é fácil de observar, basta entrarmos no site de Furnas e podemos ver que é o mais baixo nível do volume de água. Neste momento está entrando aproximadamente 60m³ de água/segundo e está saindo mais de 120m³/segundo, ou seja, o problema continua, o problema vai ser agravado e se Furnas não rever este processo nós teremos mais mortalidades.

Assista abaixo a entrevista do presidente da Peixe BR concedida ao AGRONEWS:

Baixo nível do reservatório de Furnas

Como podemos observar no demonstrativo abaixo, Manso possui um volume útil de 26,82%, sendo uma vazão de 57m³/s como afluente (volume que entra) e 129m³/s como defluente (volume que sai). Segundo o presidente da Peixe BR, a exploração comercial do lago do Manso pode causar um impacto ambiental ainda maior. “Como podemos ver, continua o processo de secagem do Manso. Se Furnas não rever este processo, nós teremos mais mortalidades, principalmente de peixes nativos“, conclui Medeiros.

crime ambiental em manso
(*) Reservatórios a fio d’água.

Variação do volume útil em Manso nos últimos 12 meses

Como informado no site de Furnas, a variação do volume útil nos últimos 12 meses leva em conta o nível do reservatório no último dia de cada mês e é atualizado mensalmente, conforme informações disponibilizadas pelo ONS.

Os reservatórios sinalizados com um asterisco (*) são a fio d’água, ou seja, com acumulação suficiente apenas para prover regularização diária ou semanal, ou que utilizam diretamente a vazão afluente do aproveitamento para a geração de energia. Devido a essa característica, o volume de água armazenado pode variar significativamente de um mês a outro.

Morte de peixes no Manso pode ter sido crime ambiental, avalia Peixe BR

Produção de peixes de cultivo no Manso

Visando o fortalecimento da cadeia da piscicultura em Mato Grosso, em Janeiro de 2018 a Lei 10.669 que alterou e revogou a Lei nº 8.464, de 4 de abril de 2006, isentou de licenciamento ambiental, outorga e pagamento de taxas de registro e outorga de água, os aquicultores com até 5 hectares de lâmina d´água em tanques escavados e represas ou até 10 mil metros cúbicos de água em tanque-rede. Houve outra alteração na antiga Lei , permitindo projetos de piscicultura destinados à produção de alevinos e peixes hídricos, das espécies exóticas, nativas e alóctones nos sistemas de criação em viveiros escavados, represas, tanques-rede e sistemas fechados.

A tilápia, que é um peixe exótico, se apresenta com um dos mais promissores peixes de água doce cultivados no planeta. Criada naturalmente em lagos, lagoas, estuários e rios ou em cativeiro, sistema intensivo e superintensivo – tanques-rede, escavados e raceway – tem demonstrado a preferência dos piscicultores e empresários mundiais pela adaptabilidade ao meio ambiente, facilidade de criação, precocidade, prolificidade, resistência à doenças e sabor de sua carne, na alimentação e gourmeteria requintada; bem como, sua pele, na medicina, indústria farmacêutica e artefatos de couro.

morte de peixes no manso
Morte de peixes no Manso pode ter sido crime ambiental, avalia Peixe BR

O empresário Junior Vidotti procurou a Usina de Furnas temendo ainda mais a redução das águas no Manso e mais perdas na produção de pescado. Segundo ele, a hidrelétrica alegou que quem determina o nível dos reservatórios é Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). “Falta mais proximidade e diálogo de Furnas com quem empreende na região do Manso, tanto o agro como o turismo, por que a gente ver a comunidade reclamando que as águas estão baixando cada vez mais e agora presenciamos nos taques de cativeiros os peixes morrendo, vemos com triste tudo isso”, relata Vidotti. O ONS é o órgão responsável pelo monitoramento e gerenciamento das usinas de geração de energia do Brasil apontou no mês passado que pelo menos oito reservatórios de algumas das principais hidrelétricas do país, na bacia do Rio Paraná, devem chegar ao fim do período seco deste ano, com os volumes de armazenamento no zero ou perto dele.

Monitoramento e manejo

A professora da UFMT Daniela Figueiredo destaca que é perigoso a criação de Tilápia como vem sendo produzida em taques redes no Lago do Manso. Ela ressalta que essa espécie não é nativa da bacia, e vivem em um ambiente artificial, alterado, e que a chance de escapar existe, e que pode ocasionar impacto grande de espécie exótica , como já aconteceu com Tucunaré, na bacia do Paraguai no Pantanal. “Pode ser um risco muito grande, e quando essas espécies são introduzidas geralmente se proliferam rapidamente e acabam levando a extinção de outras espécies que vivem ali”.

Por outro lado, Daniela denuncia que a qualidade da água e as espécies que predominam no reservatório não vem sendo monitoradas há quase uma década pela a usina de Furnas. “Furnas parou de fazer o monitoramento no reservatório e na área de influencia, e hoje, não podemos classificar quais as espécies existem hoje no Lago do Manso, o que a gente sabe, conforme relatos, é que está tendo muito predomínio de piranha, inclusive com relatos de acidentes, pessoas sendo mordidas de piranha. Precisa fazer manejo adequado, Furnas precisa voltar a fazer o monitoramento, com estudo detalhado com coletas”, observa a pesquisadora.

O empresário Junior Vidotti reforça que o piscicultor precisa de informações de Furnas, em relação a qualidade da água, haja visto que existe um investimento grande envolvido, e é de conhecimento de todos que o Lago do Manso é de uso múltiplo, não somente geração de energia, é também para exploração econômica de outras cadeias produtivas. “Além da falta de comunicação, falta ações de revitalização do Lago, por parte de Furnas, no sentido devolver as espécies nativas, para que ocorra um equilíbrio”, disse o presidente do Condomínio Rural de Piscicultores do Manso, Junior Vidotti.

Avaliação da SEMA

Em nota, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente informou que a morte de peixes em piscicultura particular não se relaciona com o reservatório de Furnas. E que foi realizada uma varredura no reservatório e não foi encontrado vestígio de morte de peixes. O órgão ambiental informou da possibilidade de ter ocorrido algo comum na região “desestratificação térmica” que significa a falta de oxigênio na superfície por troca térmica da superfície com água mais profunda.

O portal AGRONEWS entrou em contato com a Hidrelétrica e esta aguardando posicionamento a respeito do ocorrido.

Discussão no Parlamento

Por unanimidade, a Assembleia Legislativa (ALMT) aprovou em sessão extraordinária na última quarta-feira (6), o requerimento que convoca a direção da empresa Furnas Centrais Elétricas S/A a prestar esclarecimentos a respeito da mortandade de 90 toneladas de peixes no Lago do Manso, na cidade de Chapada dos Guimarães (65 km de Cuiabá). A solicitação dos esclarecimentos foi feita pelo deputado estadual Wilson Santos (PSDB). A pauta será discutida na próxima terça-feira, 13 de julho.

Por: Vicente Delgado e Márcio Moreira – AGRONEWS BRASIL

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Um Comentário

  1. Mexer com o ambiente tem  consequências cruéis e duras.  Não pensem que seria ou será diferente.
    Inversão térmica iria acontecer  de qualquer forma com o reservatório cheio ou vazio. Já acompanhei uma inversão térmica no APM Manso em 2003 ou próximo aquele ano. A diferença é que não havia nenhum empreendimento desse nível naquela época para chamar tanta atenção. Portanto, não será a última vez que isso ocorrerá.
    Quando se construiu APM Manso já se sabia dos impactos como a interrupção se não da mais, uma das mais importantes rotas de migração de peixes de piracema do Pantanal,  impacto direto na pesca artesanal profissional (basta ver com os pescadores profissionais mas há dados sobre isso) proliferação de piranhas e de outras espécies de baixo valor comercial e esportivo no novo AMBIENTE. Não há como restabelecer as populações de espécies de valor econômico e esportivo como dourado, pintado, piraputanga entre outras, porque as exigências ecológicas desses peixes não são atendidas por um ambiente tão alterado como o APM Manso. Peixamento não funciona e os argumentos técnicos mostrando isso são vastos e volumosos (principalmente em reservatórios). O cultivo de espécies exóticas e híbridas nesse ambiente é um alto risco ao PANTANAL porque não há garantias de não haver escapes dos tanques e do reservatório para jusante alcançando assim a planície alagável do Pantanal e assim estendendo o impacto para toda a bacia e mais uma vez, argumentos técnicos mostrando isso são vastos e volumosos.
    PARA PEIXES, INSETOS, E OUTROS ORGANISMOS o APM MANSO ou qualquer reservatório, É QUASE UM DESERTO!!! Simples assim!!!
    Não pensem que seria diferente, a Ciência e a técnica sempre alertaram para esses impactos e os custos de uma alteração ambiental desse porte. Não pensem que será diferente com as PCHs nos rios Cuiabazinho e Cuiabá.
    Dêem mais atenção à Ciência.

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